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sábado, 31 de dezembro de 2016

Receita de Ano Novo

Foto: Divulgação - G1


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade
"Jornal do Brasil", Dezembro/1997.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Indicação de leitura: "Senhora", de José de Alencar

Para você que quer começar a ler os clássicos da Literatura Brasileira, o livro que indico hoje é o "Senhora", um romance urbano publicado em 1874, na forma de folhetim. É um dos últimos romances de Alencar, publicado dois anos antes da morte do escritor. Dos escritores da "velha guarda", José de Alencar é sem sombra de dúvida, o mais fácil de ler e entender. Seus livros, no geral, falam de um tema universal: o amor.

Segue uma pequena resenha, retirada da Wikipedia, só para te deixar com vontade de ler:


Aurélia Camargo, filha de uma pobre costureira e órfã de pai,depois de perder seu irmão apaixonou-se por Fernando Seixas – homem ambicioso - a quem namorou. Este, porém, desfaz a relação, movido pela vontade de se casar com uma moça rica, Adelaide Amaral, e pelo dote ao qual teria direito de receber.

Passado algum tempo, Aurélia, já órfã de mãe também, recebe uma grande herança do avô e ascende socialmente.Passa, pois, a ser figura de destaque nos eventos da sociedade da época. Dividida entre o amor e o orgulho ferido, ela encarrega seu tutor e tio, Lemos, de negociar seu casamento com Fernando por um dote de cem contos de réis. O acordo realizado inclui, como uma de suas cláusulas, o desconhecimento da identidade da noiva por parte do contratado até as vésperas do casamento.


Ao descobrir que sua noiva é Aurélia, Fernando fica muito feliz, pois, na verdade, nunca deixou de amá-la. A jovem, porém, na noite de núpcias, deixa claro: "comprou-o" para representar o papel de marido que uma mulher na sua posição social deve ter.

Ah, quem me sugeriu deste livro para que eu fizesse o post foi a Rainha das Tags do Twitter, a escritora e social midia Denise Tremura (@detremura).  O bom é que "Senhora" já está no domínio público e você pode baixá-lo através do link:


Então é isso. Gostou? Comente aqui o seu livro preferido e eu faço a resenha!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Polonaise - Paulo Leminski

Paulo Leminski nos traz a simplicidade e a expressividade da poesia de vanguarda.

Esta poesia que deixo aqui hoje é a "Polonaise", que conta com uma linda versão em vídeo, produzida pela equipe do Castelo Ra-Tim-Bum, da TV Cultura.



aqui

nesta pedra

alguém sentou
olhando o mar

o mar
não parou
pra ser olhado

foi mar
pra tudo que é lado

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Natal - Uma crônica de Rubem Braga


É noite de Natal, e estou sozinho na casa de um amigo, que foi para a fazenda. Mais tarde talvez saia. Mas vou me deixando ficar sozinho, numa confortável melancolia, na casa quieta e cômoda. Dou alguns telefonemas, abraço à distância alguns amigos. Essas poucas vozes, de homem e de mulher, que respondem alegremente à minha, são quentes, e me fazem bem, "Feliz Natal, muitas felicidades!"; dizemos essas coisas simples com afetuoso calor; dizemos e creio que sentimos; e como sentimos, merecemos. Feliz Natal!

Desembrulho a garrafa que um amigo teve a lembrança de me mandar ontem; vou lá dentro, abro a geladeira, preparo um uísque, e venho me sentar no jardinzinho, perto das folhagens úmidas. Sinto-me bem, oferecendo-me este copo, na casa silenciosa, nessa noite de rua quieta. Este jardinzinho tem o encanto sábio e agreste da dona da casa que o formou. É um pequeno espaço folhudo e florido de cores, que parece respirar; tem a vida misteriosa das moitas perdidas, um gosto de roça, uma alegria meio caipira de verdes, vermelhos e amarelos.

Penso, sem saudade nem mágoa, no ano que passou. Há nele uma sombra dolorosa; evoco-a neste momento, sozinho, com uma espécie de religiosa emoção. Há também, no fundo da paisagem escura e desarrumada desse ano, uma clara mancha de sol. Bebo silenciosamente a essas imagens da morte e da vida; dentro de mim elas são irmãs. Penso em outras pessoas. Sinto uma grande ternura pelas pessoas; sou um homem sozinho, numa noite quieta, junto de folhagens úmidas, bebendo gravemente em honra de muitas pessoas.

De repente um carro começa a buzinar com força, junto ao meu portão. Talvez seja algum amigo que venha me desejar Feliz Natal ou convidar para ir a algum lugar. Hesito ainda um instante; ninguém pode pensar que eu esteja em casa a esta hora. Mas a buzina é insistente. Levanto-me com certo alvoroço, olho a rua e sorrio: é um caminhão de lixo. Está tão carregado, que nem se pode fechar; tão carregado como se trouxesse todo o lixo do ano que passou, todo o lixo da vida que se vai vivendo. Bonito presente de Natal!

0 motorista buzina ainda algumas vezes, olhando uma janela do sobrado vizinho. Lembro-me de ter visto naquela janela uma jovem mulata de vermelho, sempre a cantarolar e espiar a rua. É certamente a ela quem procura o motorista retardatário; mas a janela permanece fechada e escura. Ele movimenta com violência seu grande carro negro e sujo; parte com ruído, estremecendo a rua.

Volto à minha paz, e ao meu uísque. Mas a frustração do lixeiro e a minha também quebraram o encanto solitário da noite de Natal. Fecho a casa e saio devagar; vou humildemente filar uma fatia de presunto e de alegria na casa de uma família amiga.


Texto extraído do livro "A Borboleta Amarela", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1963, pág. 124.



sábado, 6 de dezembro de 2014

Gentileza - Crônica com cheiro de terra molhada - Wendel Valadares

Imagem: © hieubom
Dona Zica ficou uns dias de cara virada pra mim, só porque eu passei de ano direto e o Artur, filho dela que estuda na mesma sala que eu, pegou recuperação em três matérias e só passou porque a professora ajudou. Dona Zica falou que era obrigação minha ajudar o Artur a passar de ano. Meu pai ficou enfezado demais e queria ir lá tirar satisfação com ela, só não foi porque minha mãe não deixou. Falou com ele que não compensa arrumar confusão com esse tipo de gente. Fiquei com a consciência tão pesada porque minha mãe falou “esse tipo de gente”.
Agora, toda vez que o Artur grita lá do portão, me chamando pra jogar bola, minha mãe faz questão de ir lá fora e falar com ele que eu não posso não, que eu tou ocupado, estudando pra passar de ano direto e o menino vai embora caladinho, com cara de choro.
Eu acho que sei porque minha mãe trata o menino desse jeito, é só porque um dia eu falei pra ela que ele levava lanche pra escola todo dia. Daí ela falou: - que lanche, eles num tem nem onde cair morto. E eu respondi: tem dia que ele leva iogurte, tem dia que leva guaraná, até sanduiche ele já levou. E ela ficou resmungando o resto da tarde: - 'sanduiche, iche, iche'. Acho que ela ficou sentida porque aqui em casa a gente só toma um gole de café de manhã cedo e vai pra escola e só come alguma coisa na hora da merenda.
Outro dia eu ajudei o Seu Raul a limpar o quintal e ele me deu vinte reais. Minha mãe falou que era pra eu comprar um sanduiche e um guaraná pra levar pra escola, mas acabou que ela precisou do dinheiro, porque a garrafa de café quebrou e teve que comprar outra.
Tem problema não mãe, a merenda da escola é boa demais e toda vez que o Artur leva guaraná ele me oferece.

Wendel Valadares
(Texto gentilmente cedido pelo autor)

sábado, 15 de novembro de 2014

Festa de aniversário – Crônica de Fernando Sabino


Leonora chegou-se para mim, a carinha mais limpa desse mundo:
– Engoli uma tampa de Coca-Cola.
Levantei as mãos para o céu: mais essa agora! Era uma festa de aniversário, o aniversário dela própria, que completava seis anos de idade. Convoquei imediatamente a família:
– Disse que engoliu uma tampa de Coca-Cola.
A mãe, os tios, os avós, todos a cercavam, nervosos e inquietos. Abre a boca minha filha. Agora não adianta: já engoliu. Deve ter arranhado. Mas engoliu como? Quem é que engole uma tampa de cerveja? De cerveja, não: de Coca-Cola. Pode ter ficado na garganta – urgia que tomássemos uma providência, não ficássemos ali, feito idiotas. Peguei-a no colo: vem cá minha filhinha, conta só pra mim: você engoliu coisa nenhuma, não é isso mesmo? – Engoli sim papai! – Ela afirmava com decisão. Consultei o tio, baixinho: o que é que você acha? Ele foi buscar uma tampa de garrafa, separou a cortiça do metal:
– O que é que você engoliu: isto... Ou isto?
– Cuidado que ela engole outra. – Adverti.
– Isto! – E ela apontou com firmeza a parte de metal.
Não tinha dúvida: pronto-socorro. Dispus-me a carregá-la, mas alguém sugeriu que era melhor que ela fosse andando: auxiliava a digestão.
No hospital, o médico limitou-se a apalpar-lhe a barriguinha, cético:
– Dói aqui, minha filha?
Quando falamos em radiografia, revelou-nos que o aparelho estava com defeito: só no pronto-socorro da cidade.
Batemos para o pronto-socorro da cidade. Outro médico nos atendeu com solicitude:
– Vamos já ver isto.
Tirada a chapa, ficamos aguardando ansiosa revelação. Em pouco o médico regressava:
Engoliu foi a garrafa.
– A garrafa? – Exclamei. Mas, era uma gracinha dele, cujo espírito passava muito ao largo da minha aflição: eu não estava para graças. Uma tampa de garrafa! Certamente precisaria operar – não haveria de sair por si mesma.
O médico pôs-se a rir de mim:
– Não engoliu coisa nenhuma. O senhor pode ir descansado.
– Engoli! – afirmou a menininha.
– Voltei-me para ela:
– Como é que você ainda insiste minha filha?
– Que eu engoli, engoli.
– Pensa que engoliu. – emendei.
– Isso acontece. – sorriu o médico: - Até com gente grande. Aqui já teve um guarda que pensou ter engolido o apito.
– Pois eu engoli mesmo – comentou ela, intransigente.
– Você não pode ter engolido – arrematei já impaciente: - Quer saber mais do que o médico?
– Quero. Eu engoli, e depois desengoli! – Esclareceu ela.
Nada mais havendo a fazer, engoli em seco, despedi-me do médico e bati em retirada com toda a comitiva.

SABINO, Fernando. A vitória da infância. São Paulo: Editora Nacional, 1984.

Fernando Sabino - o mago das crônicas



Fernando Tavares Sabino (Belo Horizonte, 12 de outubro de 1923 — Rio de Janeiro, 11 de outubro de 2004) foi um escritor e jornalista brasileiro.
Na minha humilde opinião, um dos maiores cronistas que o Brasil já teve. Um mago que transformava situações corriqueiras em crônicas maravilhosas, capazes de arrancar gargalhadas ou provocar uma lágrima. Não foi à toa que muitas delas foram parar na coleção paradidática da Editora Ática "Para Gostar de Ler". Descobri Sabino aos sete anos de idade, e, aos catorze, tinha lido todos os títulos do autor que estavam na biblioteca pública. Basta dizer que gostei de todos, menos um: Zélia, uma paixão (polêmica biografia de Zélia Cardoso de Mello, ex-Ministra da Economia do governo Collor), que para mim, foi sua única "bola fora".

Obras:

• A marca (1944, José Olympio)
• A cidade vazia (1950, O Cruzeiro)
• A vida real (1952, Editora A Noite)
• O encontro marcado (1956, Civilização Brasileira)
• O homem nu (1960, Editora do Autor)
• A mulher do vizinho (1962, Editora do Autor)
• A companheira de viagem (1965, Editora do Autor)
• A inglesa deslumbrada (1967, Sabiá)
• Gente (1975, Record)
• Deixa o Alfredo falar! (1976, Record)
• O encontro das águas (1977, Record)
• O grande mentecapto (1979, Record)
• A falta que ela me faz (1980, Record)
• O menino no espelho (1982, Record)
• O gato sou eu (1983, Record)
• Macacos me mordam (1984, Record)
• A vitória da infância (1984, Editora Nacional)
• A faca de dois gumes (1985, Record)
• O pintor que pintou o sete (1987, Berlendis & Vertecchia)
• Martini Seco (1987, Ática)
• O tabuleiro das damas (1988, Record)
• De cabeça para baixo (1989, Record)
• A volta por cima (1990, Record)
• Zélia, uma paixão (1991, Record)
• O bom ladrão (1992, Ática)
• Aqui estamos todos nus (1993, Record)
• Os restos mortais (1993, Ática)
• A nudez da verdade (1994, Ática)
• Com a graça de Deus (1995, Record)
• O outro gume da faca (1996, Ática)
• Um corpo de mulher (1997, Ática)
• O homem feito (1998, Ática)
• Amor de Capitu (1998, Ática)
• No fim dá certo (1998, Record)
• A chave do enigma (1999, Record)
• O galo músico (1999, Record)
• Cara ou coroa? (2000, Ática)
• Duas novelas de amor (2000, Ática)
• Livro aberto – Páginas soltas ao longo do tempo (2001, Record)
• Os caçadores de mentira (2003, Rocco)
• Os movimentos simulados (2004, Record)

Correspondências publicadas
• Cartas a um jovem escritor e suas respostas (1993, Editora Record) – correspondência com Mário de Andrade.

• Cartas perto do coração – correspondência com Clarice Lispector (2001, Editora Record)

• Cartas na mesa – correspondência com Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino (2002. Editora Record)

Referências: http://fernandosabino.com.br/

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