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terça-feira, 10 de março de 2015

Literalidades - by Taís Salum


Pequena crônica da minha vida, da série "Nossa Língua Portuguesa":

Foto retirada do blog "Receitas do Front"



Entrando no açougue no fim da tarde, depois de um dia "daqueles", perguntei ao atendente:

- Moço, quanto é o quilo da salsicha?

- Olha, senhora, tem dessa marca que é R$ 6,70 e aquela resfriada, por R$ 8,99.

- Moço, se ela está doente, por que tenho que pagar mais caro por ela?

Rimos muito. E levei a mais barata, lógico.

(SBC, 10/03/2015)


 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Natal - Uma crônica de Rubem Braga


É noite de Natal, e estou sozinho na casa de um amigo, que foi para a fazenda. Mais tarde talvez saia. Mas vou me deixando ficar sozinho, numa confortável melancolia, na casa quieta e cômoda. Dou alguns telefonemas, abraço à distância alguns amigos. Essas poucas vozes, de homem e de mulher, que respondem alegremente à minha, são quentes, e me fazem bem, "Feliz Natal, muitas felicidades!"; dizemos essas coisas simples com afetuoso calor; dizemos e creio que sentimos; e como sentimos, merecemos. Feliz Natal!

Desembrulho a garrafa que um amigo teve a lembrança de me mandar ontem; vou lá dentro, abro a geladeira, preparo um uísque, e venho me sentar no jardinzinho, perto das folhagens úmidas. Sinto-me bem, oferecendo-me este copo, na casa silenciosa, nessa noite de rua quieta. Este jardinzinho tem o encanto sábio e agreste da dona da casa que o formou. É um pequeno espaço folhudo e florido de cores, que parece respirar; tem a vida misteriosa das moitas perdidas, um gosto de roça, uma alegria meio caipira de verdes, vermelhos e amarelos.

Penso, sem saudade nem mágoa, no ano que passou. Há nele uma sombra dolorosa; evoco-a neste momento, sozinho, com uma espécie de religiosa emoção. Há também, no fundo da paisagem escura e desarrumada desse ano, uma clara mancha de sol. Bebo silenciosamente a essas imagens da morte e da vida; dentro de mim elas são irmãs. Penso em outras pessoas. Sinto uma grande ternura pelas pessoas; sou um homem sozinho, numa noite quieta, junto de folhagens úmidas, bebendo gravemente em honra de muitas pessoas.

De repente um carro começa a buzinar com força, junto ao meu portão. Talvez seja algum amigo que venha me desejar Feliz Natal ou convidar para ir a algum lugar. Hesito ainda um instante; ninguém pode pensar que eu esteja em casa a esta hora. Mas a buzina é insistente. Levanto-me com certo alvoroço, olho a rua e sorrio: é um caminhão de lixo. Está tão carregado, que nem se pode fechar; tão carregado como se trouxesse todo o lixo do ano que passou, todo o lixo da vida que se vai vivendo. Bonito presente de Natal!

0 motorista buzina ainda algumas vezes, olhando uma janela do sobrado vizinho. Lembro-me de ter visto naquela janela uma jovem mulata de vermelho, sempre a cantarolar e espiar a rua. É certamente a ela quem procura o motorista retardatário; mas a janela permanece fechada e escura. Ele movimenta com violência seu grande carro negro e sujo; parte com ruído, estremecendo a rua.

Volto à minha paz, e ao meu uísque. Mas a frustração do lixeiro e a minha também quebraram o encanto solitário da noite de Natal. Fecho a casa e saio devagar; vou humildemente filar uma fatia de presunto e de alegria na casa de uma família amiga.


Texto extraído do livro "A Borboleta Amarela", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1963, pág. 124.



sábado, 6 de dezembro de 2014

Gentileza - Crônica com cheiro de terra molhada - Wendel Valadares

Imagem: © hieubom
Dona Zica ficou uns dias de cara virada pra mim, só porque eu passei de ano direto e o Artur, filho dela que estuda na mesma sala que eu, pegou recuperação em três matérias e só passou porque a professora ajudou. Dona Zica falou que era obrigação minha ajudar o Artur a passar de ano. Meu pai ficou enfezado demais e queria ir lá tirar satisfação com ela, só não foi porque minha mãe não deixou. Falou com ele que não compensa arrumar confusão com esse tipo de gente. Fiquei com a consciência tão pesada porque minha mãe falou “esse tipo de gente”.
Agora, toda vez que o Artur grita lá do portão, me chamando pra jogar bola, minha mãe faz questão de ir lá fora e falar com ele que eu não posso não, que eu tou ocupado, estudando pra passar de ano direto e o menino vai embora caladinho, com cara de choro.
Eu acho que sei porque minha mãe trata o menino desse jeito, é só porque um dia eu falei pra ela que ele levava lanche pra escola todo dia. Daí ela falou: - que lanche, eles num tem nem onde cair morto. E eu respondi: tem dia que ele leva iogurte, tem dia que leva guaraná, até sanduiche ele já levou. E ela ficou resmungando o resto da tarde: - 'sanduiche, iche, iche'. Acho que ela ficou sentida porque aqui em casa a gente só toma um gole de café de manhã cedo e vai pra escola e só come alguma coisa na hora da merenda.
Outro dia eu ajudei o Seu Raul a limpar o quintal e ele me deu vinte reais. Minha mãe falou que era pra eu comprar um sanduiche e um guaraná pra levar pra escola, mas acabou que ela precisou do dinheiro, porque a garrafa de café quebrou e teve que comprar outra.
Tem problema não mãe, a merenda da escola é boa demais e toda vez que o Artur leva guaraná ele me oferece.

Wendel Valadares
(Texto gentilmente cedido pelo autor)

sábado, 15 de novembro de 2014

Festa de aniversário – Crônica de Fernando Sabino


Leonora chegou-se para mim, a carinha mais limpa desse mundo:
– Engoli uma tampa de Coca-Cola.
Levantei as mãos para o céu: mais essa agora! Era uma festa de aniversário, o aniversário dela própria, que completava seis anos de idade. Convoquei imediatamente a família:
– Disse que engoliu uma tampa de Coca-Cola.
A mãe, os tios, os avós, todos a cercavam, nervosos e inquietos. Abre a boca minha filha. Agora não adianta: já engoliu. Deve ter arranhado. Mas engoliu como? Quem é que engole uma tampa de cerveja? De cerveja, não: de Coca-Cola. Pode ter ficado na garganta – urgia que tomássemos uma providência, não ficássemos ali, feito idiotas. Peguei-a no colo: vem cá minha filhinha, conta só pra mim: você engoliu coisa nenhuma, não é isso mesmo? – Engoli sim papai! – Ela afirmava com decisão. Consultei o tio, baixinho: o que é que você acha? Ele foi buscar uma tampa de garrafa, separou a cortiça do metal:
– O que é que você engoliu: isto... Ou isto?
– Cuidado que ela engole outra. – Adverti.
– Isto! – E ela apontou com firmeza a parte de metal.
Não tinha dúvida: pronto-socorro. Dispus-me a carregá-la, mas alguém sugeriu que era melhor que ela fosse andando: auxiliava a digestão.
No hospital, o médico limitou-se a apalpar-lhe a barriguinha, cético:
– Dói aqui, minha filha?
Quando falamos em radiografia, revelou-nos que o aparelho estava com defeito: só no pronto-socorro da cidade.
Batemos para o pronto-socorro da cidade. Outro médico nos atendeu com solicitude:
– Vamos já ver isto.
Tirada a chapa, ficamos aguardando ansiosa revelação. Em pouco o médico regressava:
Engoliu foi a garrafa.
– A garrafa? – Exclamei. Mas, era uma gracinha dele, cujo espírito passava muito ao largo da minha aflição: eu não estava para graças. Uma tampa de garrafa! Certamente precisaria operar – não haveria de sair por si mesma.
O médico pôs-se a rir de mim:
– Não engoliu coisa nenhuma. O senhor pode ir descansado.
– Engoli! – afirmou a menininha.
– Voltei-me para ela:
– Como é que você ainda insiste minha filha?
– Que eu engoli, engoli.
– Pensa que engoliu. – emendei.
– Isso acontece. – sorriu o médico: - Até com gente grande. Aqui já teve um guarda que pensou ter engolido o apito.
– Pois eu engoli mesmo – comentou ela, intransigente.
– Você não pode ter engolido – arrematei já impaciente: - Quer saber mais do que o médico?
– Quero. Eu engoli, e depois desengoli! – Esclareceu ela.
Nada mais havendo a fazer, engoli em seco, despedi-me do médico e bati em retirada com toda a comitiva.

SABINO, Fernando. A vitória da infância. São Paulo: Editora Nacional, 1984.

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