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sábado, 31 de dezembro de 2016

Receita de Ano Novo

Foto: Divulgação - G1


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade
"Jornal do Brasil", Dezembro/1997.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Receita de Ano Novo - Carlos Drummond de Andrade














Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.

*******

Quino 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Versos de Natal - Manuel Bandeira

Espelho, amigo verdadeiro,

Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo  exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
–
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em por seus chinelinhos atrás da porta.
–
1939
–
–
Em: Antologia Poética, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, Sabiá: 1961, 5ª edição

Desejo a todos os leitores um Feliz Natal e um excelente 2016!
–

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Leminski: A lua no cinema e o melhor da semana...

A lua no cinema



A lua foi ao cinema,

passava um filme engraçado,

a história de uma estrela

que não tinha namorado.


Não tinha porque era apenas

uma estrela bem pequena,

dessas que, quando apagam,

ninguém vai dizer, que pena!


Era uma estrela sozinha,

ninguém olhava pra ela,

e toda a luz que ela tinha

cabia numa janela.


A lua ficou tão triste

com aquela história de amor

que até hoje a lua insiste:

— Amanheça, por favor!


LEMINSKI, Paulo

in “Melhores Poemas de Paulo Leminski”, organização de Fred Góes, editora Global.


Circulando por aí, achei uns posts e matérias bem interessantes. Venha junto comigo neste passeio!

As lições atemporais de “O Pequeno Príncipe” - "O Pequeno Príncipe é uma obra atemporal. Quando li o livro, aos 13 anos, entendi que havia uma mensagem além da narrativa simples. Mas só com o passar dos anos suas várias nuances se fizeram mais claras para mim. O que ficou foi a lição de que temos de conjugar mais o verbo “ser” do que o “ter”. Somos pessoas melhores quando nutrimos relações baseadas no carinho, quando encaramos a vida de maneira lúdica. Não podemos criar crianças sem fantasia, sem amigos. Elas precisarão dessa infância amorosa e imaginativa para ser bons adultos. Foi a educação que eu dei para meus filhos e a que eles dão a meus netos, Clarice, de 5 anos, e Breno, de 2. Fiquei muito emocionado depois que acabei a dublagem e vi o resultado. O filme reflete minha relação de amizade com meus netos. Eu os vejo pelo menos três vezes por semana e tento proporcionar a eles uma vida livre e criativa. Nesse sentido, sou um pouco como o Aviador. Meus netos têm um amigo lúdico que crê numa vida com menos obrigações e menos tarefas".

Leia mais: http://www.livrosepessoas.com/2015/11/29/as-licoes-atemporais-de-o-pequeno-principe/


Gosta do Caetano Veloso? Eu também. Deixe-me contar: o artista disponibilizou a discografia completa no site oficial Amei!

Acesse: http://www.caetanoveloso.com.br/discografia.php


Dica de Língua Portuguesa, por António Pereira: qual a abreviatura de minuto: m., m, min. ou min?

http://www.dihitt.com/barra/qual-a-abreviatura-de-minuto-m-m-min-ou-min

Uma grande estrela se despede de nós:
"Marília Pêra, 2012" por Ministério da Cultura - Wikipedia 

Marília Marzullo Pêra (Rio de Janeiro, 22 de janeiro de 1943 – Rio de Janeiro, 5 de dezembro de 2015) foi uma atriz, cantora e diretora teatral brasileira.

Além de interpretar, Marília cantava, dançava e atuava também como coreógrafa, produtora e diretora de peças e espetáculos musicais.

Era uma artista completa e atuava com paixão.

Marília, cerraram-se as cortinas, apagaram-se as luzes da ribalta, porém a sua estrela continuará brilhando, enquanto a sua obra for lembrada...

Leitura da semana:

CLÁSSICOS DO CINEMA #50 EPARÓDIA I: TRAPAÇA FANTASMA

A Turminha vive uma divertida aventura numa galáxia distante. Clima de Star Wars no ar!

Por falar em Mauricio de Sousa, ele foi o grande homenageado do maior prêmio literário do Brasil, o Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro.

Leia mais: 
http://turmadamonica.uol.com.br/mauricio-de-sousa-e-o-grande-homenageado-do-premio-jabuti-2015/

domingo, 29 de novembro de 2015

A semana em gotas

Frase poética da semana:

"Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos".
(Manoel de Barros, in O livro sobre o nada)



Na lista de desejos:

A L&PM Editores lança o primeiro volume de uma coletânea de histórias da mais genial das velhinhas, Miss Marple, uma das mais famosas personagens da Dama do Crime, Agatha Christie.
“Miss Marple Omnibus”, título original da obra, conta com 688 páginas, divididas em quatro romances policiais, entre eles “Assassinato na Casa do Pastor”, “Um Corpo na Biblioteca”, “A Mão Misteriosa” e “Convite para um Homicídio”, traduzidos, respectivamente, por Henrique Guerra, Petrucia Finkler, Edmundo Barreiros e Alessandro Zir. (...)

Destaque em http://pointliteral.blogspot.com.br/2015/10/l-editores-lanca-nova-coletanea-de.html


Uma das melhores capas de jornal de todos os tempos:

O jornalista sabe que fez uma boa manchete quando ela, sintética por natureza, consegue contar toda uma história. Melhor ainda, se ela conseguir passar emoção, o estado de espírito de um povo. Agora, fazer uma capa inteira contando várias histórias com o mesmo título, juntando fatos que envolvem a mesma ideia, em síntese própria da poesia, embora dura poesia, é para poucos. Parabéns aos colegas do jornal mineiro. (...) 

Destaque em: 
http://blogs.odiario.com/fernandonande/2015/11/26/a-melhor-capa-de-jornal-estado-de-minas/#.Vlb7VIzMQtU.twitter

http://imgsapp.impresso.em.com.br/app/da_capas_134132081523/2015/11/26/1305/20151126000340348650a.pdf


Melhores tirinhas no Twitter:

Por @mauriciodesousa



Por @skoobnews


quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Poesia: Meus oito anos - Casimiro de Abreu




Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d'amor!

Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
— Pés descalços, braços nus —
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

................................

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!


O poema “Meus oito anos” faz parte do Livro I da coletânea “As primaveras”, publicada por Casimiro de Abreu em 1859, que gira em torno da saudade da infância e da terra natal, a maior parte delas escritas durante sua estada em Lisboa.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Escolhas: poesia de Erika Alves

Para deixar a alma leve, nada melhor que uma boa poesia, gentilmente cedida pela autora.




Hoje eu prefiro ouvir somente o  silêncio,
prefiro vivenciar  a inquietude dos meus dias.
Prefiro a ausência,
mesmo estando em meio à multidão.
Quero sorrir o sorriso ausente.
Quero estar só, sem ser.

                                  Erika Alves

sábado, 18 de julho de 2015

Curtas da semana

Enquanto isso, lá em Lisboa, nossos amigos da Língua Portuguesa falam sobre o amor:

https://www.facebook.com/ParadoXos

Sobre a sorte:

Acordou cedo,
Dormiu tarde,
Sonhou com o trabalho,
Corrigiu redações durante o feriado.
Parabéns: você tem sorte!

https://www.facebook.com/programaesteticanatv?fref=photo

E depois de todo o trabalho, você fica pensando se vai conseguir se aposentar um dia, um sonho que se torna cada vez mais distante para os brasileiros da minha idade. Resta saber se estarei viva na data prevista segundo as novas regras do INSS. E, para completar a depressão, é só assistir essa brilhante charge do Maurício Ricardo, que aborda a triste realidade da desvalorização das aposentadorias:




Mudando de assunto, vamos falar de dança. Michael Jackson foi desbancado recentemente por desenho animado. As personagens de Frozen tomaram o lugar do Rei do Pop e arrasaram!



Ainda sobre dança, outro vídeo sensacional, uma dupla inusitada e perfeita:



Agora, falaremos de variedades linguísticas: bolacha, bolacha, bolacha! (Essa é para os amigos cariocas...)

https://www.facebook.com/memrise?pnref=story

E para finalizar, uma dica de Língua Portuguesa:

https://www.facebook.com/SannaRosemary?fref=photo
Com uma pequena correção: cataplasma e omelete, segundo o VOLP, são substantivos comuns de dois gêneros - aquele tipo que a nossa presidente Dilma, a "Reformadora da Ortografia", não sabe qual é e insiste em inventar modas!

That's all, folks!

sexta-feira, 3 de abril de 2015

E agora, José? - Carlos Drummond de Andrade





E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Soneto de Fidelidade - Vinícius de Moraes



 


De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes, "Antologia Poética", Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág. 96.

domingo, 22 de março de 2015

Poesias na parede: Plástico Bolha

Andar atento por aí pode ser bem interessante, sempre há poetas e artistas contemporâneos que resolvem manifestar a sua arte, poesia ou protesto nas ruas da cidade. Esta poesia que posto a seguir, assinada pela página do Facebook  Comum A2 estava colada na parede de um ponto de ônibus em São Bernardo do Campo. Adorei!

Foto: Taís Salum

sábado, 14 de março de 2015

Paisagens sonhadas - Mário Quintana

Porque sonhar é preciso!

Foto gentilmente cedida pela fotógrafa Erika Alves

"O que os olhos não veem o coração também sente. 
Pois há coisas que só conseguimos ver de olhos fechados. 
Coisas que podem estar muito perto: dentro de nós mesmos. 
Ou, então, longe demais: 
em mundos recém-descobertos pelo viajante Quintana."

(Mario Quintana)

sexta-feira, 13 de março de 2015

Ando em busca de um ombro - Wendel Valadares

Meu amigo Wendel Valadares sabe traduzir sentimentos, e os meus se encontram neste labirinto de palavras. Querido poeta, obrigada!

http://wendelvaladares.blogspot.com.br/

Ando em busca de um ombro
disposto a acolher minhas lágrimas.

Uma palavra que interrompa
o meu silêncio,
ou
um silêncio que me
ajude a calar.

Ando em busca de um colo
que compreenda o meu
cansaço
e
mãos que saibam
acariciar.

Ando em busca
de alguém
que saiba me devolver
ou me tirar do lugar.

(Wendel Valadares)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Talvez - Pablo Neruda

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos…
E por amor
Serei… Serás… Seremos…


NERUDA, Pablo. Cem Sonetos de Amor – tradução de Carlos Nejar. Rio Grande do Sul: L & PM



*******

Pablo Neruda (Parral, 12 de Julho de 1904 — Santiago, 23 de Setembro de 1973) foi um poeta chileno, bem como um dos mais importantes poetas da língua castelhana do século XX e cônsul do Chile na Espanha (1934 — 1938) e no México. Ademais, foi um destacado ativista político, senador, membro do Comitê Central do Partido Comunista do Chile, pré-candidato a presidência de seu país e embaixador na França. Entre seus muitos reconhecimentos, destacam-se o Prêmio Nobel de Literatura em 1971 e um Doutorado Honoris Causa pela Universidade de Oxford.

Retirado de Wikipedia
Foto: Revista argentina Siete días ilustrados, 1974 - DP

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Polonaise - Paulo Leminski

Paulo Leminski nos traz a simplicidade e a expressividade da poesia de vanguarda.

Esta poesia que deixo aqui hoje é a "Polonaise", que conta com uma linda versão em vídeo, produzida pela equipe do Castelo Ra-Tim-Bum, da TV Cultura.



aqui

nesta pedra

alguém sentou
olhando o mar

o mar
não parou
pra ser olhado

foi mar
pra tudo que é lado

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Manoel de Barros - um poeta nos deixa...

Hoje o Brasil se despede de mais um dos seus grandes nomes da Literatura e poesia: Manoel de Barros.

http://withrealtoads.blogspot.com.br


Biografia

Manoel Wenceslau Leite de Barros (Cuiabá, 19 de dezembro de 1916 — Campo Grande, 13 de novembro de 2014) foi um poeta brasileiro do século XX, pertencente, cronologicamente à Geração de 45, mas formalmente ao Pós-Modernismo brasileiro, situando-se mais próximo das vanguardas europeias do início do século e da Poesia Pau-Brasil e da Antropofagia de Oswald de Andrade. Recebeu vários prêmios literários, entre eles, dois Prêmios Jabutis. É o mais aclamado poeta brasileiro da contemporaneidade nos meios literários. Enquanto ainda escrevia, Carlos Drummond de Andrade recusou o epíteto de maior poeta vivo do Brasil em favor de Manoel de Barros.
Era ocupante da cadeira número 1 da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

Obras:

1942 — Face imóvel
1956 — Poesias
1960 — Compêndio para uso dos pássaros
1966 — Gramática expositiva do chão
1974 — Matéria de poesia
1980 — Arranjos para assobio
1985 — Livro de pré-coisas
1989 — O guardador das águas
1990 — Gramática expositiva do chão: Poesia quase toda
1993 — Concerto a céu aberto para solos de aves
1993 — O livro das ignorãças
1996 — Livro sobre nada
1996 — Das Buch der Unwissenheiten - Edição da revista alemã Akzente
1998 — Retrato do artista quando coisa
2000 — Ensaios fotográficos
2000 — Exercícios de ser criança
2000 — Encantador de palavras - Edição portuguesa
2001 — O fazedor de amanhecer
2001 — Tratado geral das grandezas do ínfimo
2001 — Águas
2003 — Para encontrar o azul eu uso pássaros
2003 — Cantigas para um passarinho à toa
2003 — Les paroles sans limite - Edição francesa
2003 — Todo lo que no invento es falso - Antologia na Espanha
2004 — Poemas Rupestres
2005 — Riba del dessemblat. Antologia poètica — Edição catalã (2005, Lleonard Muntaner, Editor)
2005 — Memórias inventadas I
2006 — Memórias inventadas II
2007 — Memórias inventadas III
2010 — Menino do Mato
2010 — Poesia Completa
2011 — Escritos em verbal de ave
2013 — Portas de Pedro Viana

Um pouco da poesia de Manoel de Barros

Em FACE IMÓVEL:

PAZ

Esta janela aberta
As cadeiras em ordem por volta da mesa
A luz da lâmpada na moringa
Duas meninas que conversam longe…
Paz!
O telefone que descansa
As cortinas azuis que nem balançam
Mas sobre uma cadeira alguém está chorando.
Paz!


Em COMPÊNDIO PARA USO DOS PÁSSAROS:

UM BEM-TE-VI
O leve e macio
raio de sol
se põe no rio.
Faz arrebol…
Da árvore evola
amarelo, do alto
bem-te-vi-cartola
e, de um salto
pousa envergado
no bebedouro
a banhar seu louro
pelo enramado…
De arrepio, na cerca
já se abriu, e seca.

Em ARRANJOS PARA ASSOBIO:

Poesia, s.f.
Raiz de água larga no rosto da noite
Produto de uma pessoa inclinada a antro
Remanso que um riacho faz sob o caule da manhã
Espécie de réstia espantada que sai pelas frinchas
de um homem
Designa também a armação de objetos lúdicos
com emprego de palavras imagens cores sons etc.
— geralmente feitos por crianças pessoas esquisitas
loucos e bêbados


Em O FAZEDOR DE AMANHECER:

A LÍNGUA MÃE
Não sinto o mesmo gosto nas palavras:
oiseau e pássaro.
Embora elas tenham o mesmo sentido.
Será pelo gosto que vem de mãe? de língua mãe?
Seria porque eu não tenha amor pela língua
de Flaubert?
Mas eu tenho.
(Faço este registro porque tenho a estupefação
de não sentir com a mesma riqueza as
palavras oiseau e pássaro)
Penso que seja porque a palavra pássaro em
mim repercute a infância
E oiseau não repercute.
Penso que a palavra pássaro carrega até hoje
nela o menino que ia de tarde pra
debaixo das árvores a ouvir os pássaros.
Nas folhas daquelas árvores não tinha oiseaux
Só tinha pássaros.
É o que me ocorre sobre língua mãe.

Referências Bibliográficas

http://pt.wikipedia.org/wiki/Manoel_de_Barros
BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A poesia de Cecília Meireles

 
Doodle do Google homenageia 113o. aniversário de Cecília Meireles.
Cecília Benevides de Carvalho Meireles (Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1901 — Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1964) foi uma poetisa, pintora, professora e jornalista brasileira . 

Gosto muito desta poesia:

Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.


 Um pouquinho da vida e obra...

Em 1919, aos dezoito anos de idade, Cecília Meireles publicou seu primeiro livro de poesias, Espectros, um conjunto de sonetos simbolistas. Embora vivesse sob a influência do Modernismo, apresentava ainda, em sua obra, heranças do Simbolismo e técnicas do Classicismo, Gongorismo, Romantismo, Parnasianismo, Realismo e Surrealismo, razão pela qual a sua poesia é considerada atemporal.

Teve ainda importante atuação como jornalista, com publicações diárias sobre problemas na educação, área à qual se manteve ligada, tendo fundado, em 1934, a primeira biblioteca infantil do Brasil. Observa-se ainda seu amplo reconhecimento na poesia infantil com textos como Leilão de Jardim, O Cavalinho Branco, Colar de Carolina, O mosquito escreve, Sonhos da menina, O menino azul e A pombinha da mata, entre outros. Com eles traz para a poesia infantil a musicalidade característica de sua poesia, explorando versos regulares, a combinação de diferentes metros, o verso livre, a aliteração, a assonância e a rima. Os poemas infantis não ficam restritos à leitura infantil, permitindo diferentes níveis de leitura.

Como esse, tão singelo:

Olha
a janela
da bela
Arabela.

Que flor
é aquela
que Arabela
molha?

É uma flor amarela.


Em 1923, publicou Nunca Mais… e Poema dos Poemas, e, em 1925, Baladas Para El-Rei. Após longo período, em 1939, publicou Viagem, livro com o qual ganhou o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras. Católica, escreveu textos em homenagem a santos, como Pequeno Oratório de Santa Clara, de 1955; O Romance de Santa Cecília e outros.


Texto retirado de:


MEIRELES, Cecília. Ou isto ou aquilo. Ilustrações de Eleonora Affonso. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.

MEIRELES, ______. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: 2001. v. 1 e 2.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Bem no fundo - Poesia de Paulo Leminski

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

********

Paulo Leminski Filho (Curitiba, 24 de agosto de 1944 — Curitiba, 7 de junho de 1989) foi um escritor, poeta, crítico literário, tradutor e professor brasileiro.

Referências:
Imagem: pertence ao filme "Ervilha da Fantasia" (1985)- Eduardo Pioli Alberti
Textos: Wikipedia/ Revista Bula

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Procura da poesia - Carlos Drummond de Andrade

Meu bate-papo com o Drummond, em 2013...

Não faças versos sobre acontecimentos.

Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

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Alguma poesia

Primeiro livro publicado por Drummond, em 1930. Já neste primeiro trabalho, revolucionou a poesia brasileira, com o seu verso livre e linguagem direta.

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